a crise na relação com o passado


Piero Guccione (1935-). Macchina e paesaggio – 1977. Pastello su carta, 49x64cm

[...]. A situação da arte hoje em dia é talvez o lugar exemplar para compreendermos a crise na relação com o passado, de que acabamos de falar. O único lugar em que o passado pode viver é o presente, e se o presente não sente mais o próprio passado como vivo, o museu e a arte, que daquele passado é a figura eminente, se tornam lugares problemáticos. Em uma sociedade que já não sabe o que fazer do seu passado, a arte se encontra premida entre a Cila do museu e a Caribdis da mercantilização. E muitas vezes, como acontece nos templos do absurdo que são os museus de arte contemporânea, as duas coisas coincidem.

Giorgio Agamben (1942-)

Uma formidável preocupação em desconstruir os mitos e as fábulas para tornar este mundo habitável e desejável. Reduzir os deuses e os temores, os medos e as angústias existencias a encadeamentos de casualidades materiais; domesticar a morte com uma terapia ativa aqui e agora, sem convidar a morrer em vida para melhor partir quando chegar a hora; construir soluções com o mundo e os homens efetivos; preferir modestas proposições filosóficas viáveis a construções conceituais sublimes, mas inabitáveis; recusar-se a fazer da dor e do sofrimento vias de acesso ao conhecimento e à redenção pessoal; propor-se o prazer, a felicidade, a utilidade comum, o contrato jubiloso; compor com o corpo em vez de propor detestá-lo; domar paixões e pulsões, desejos e emoções, em vez de extirpá-los brutalmente de si. A aspiração ao projeto de Epicuro? O puro prazer de existir… Projeto sempre atual.

Michel Onfray. A Potência de Existir. 2010. p. 11