Fertilidade
Sobre as Entranhas:
As entranhas começaram como uma repetição de formas com as quais brincava de ‘labirinto’, no início elas eram feitas com formas retangulares, tinham a mesma idéia, mas eram tratadas de forma diferente.
Agora percebo que essas formas mais rígidas, não passavam uma imagem exata dos labirintos das brincadeiras de criança, mas naquele momento ela me parecia à forma final, tanto que encaminhei vários desenhos dos labirintos para o concurso do Itaú Cultural. Fui reprovado.
Não consegui deixar essas formas de lado, nem esquecê-las, mas não lembro exatamente em que ponto elas deixaram de ser rígidas, em linhas retas, para transformarem-se em linhas mais vivas, sinuosas. A única diferença era que estava usando essas formas inseridas de alguma forma em outro desenho, fazendo parte de uma composição maior.

Os labirintos passaram a ser entranhas, incrustadas nos desenhos, em segundo plano, com formas mais femininas, foram as formas femininas que me levaram a transformar as linhas retas em sinuosas.

As “entranhas” como passei a chamar essas formas, desenvolveram-se com um processo de repetição, ela funciona em um processo de três. Seguindo uma linha não linear, de três em três tempos.
Imaginei então que as entranhas poderiam ser utilizadas de outra forma, sozinhas, ou seja, sendo o objeto principal da composição não uma forma aleatória que delineia o espaço ao fundo do desenho.
O próximo passo seria uma pesquisa informal.
A pesquisa:

Mark Rothko foi o primeiro artista que me lembrei ao pensar em cores, pois suas formas e soluções são uma aula de simplicidade, sagacidade e introspecção. Rothko sempre me deixa boquiaberto com a vida em forma de cores e sons, não mensuráveis.

Ad Reinhardt foi uma progressão quase consciente, mas teve muito a ver com minha admiração pelo trabalho recente de Chuck Close, aonde ele usa formas esféricas em uma base cromática ampliada, para dar forma aos seus quadros em composições gigantes, lembrando muito as distorções ocasionadas por vidros.

Mas foi com Ad Reinhardt que conheci Brice Marden. Marden me assustou, era como se tudo que tivesse feito e pensando tivesse saído da mesma fonte que ele usa e abusa. Por um longo tempo pensei em desistir de usar as entranhas ao ver os desenhos e pinturas de Marden.

Com Beatriz Milhazes voltei a pensar nas entranhas como uma forma sólida, complexa o suficiente para ser a composição em si. O estouro efervescente de Milhazes, as milhares de cores brilhando como se dançassem em pleno pôr-do-sol, em alguma praia. Parece uma visão simplista do trabalho de Milhazes, mas existe outra forma mais concreta de sentir a arte, do que transportando a mesma para nossa vida? Interpretando-a como nossa?
A parede:
A oportunidade de pintar uma parede foi não apenas um fato interessante para chegar a certas conclusões, como um desafio para minha pouca paciência com o tempo de secagem/execução da tinta, entre outras coisas.
A primeira decisão foi por utilizar uma tinta acrílica de secagem rápida. As cores teriam que ser vivas e não serem muitas. Queria fazer um fundo que não fosse chapado, mas que não saltasse aos olhos, espero ter conseguido.
(Olhando agora acho que deveria ter trabalhado de forma inversa).

As entranhas foram mais simples do que pensava, mas mesmo com aquele tamanho percebi que as formas poderiam ser menores, um pincel mais fino seria a solução.
O ato de pintar é estranho às resoluções posteriores, pois o resultado requer o trabalho concluído, já que o ato de pintar é indiferente a processos “românticos”, inspiração não funciona muito bem mesmo. Na verdade inspiração é a última coisa.

Quando paramos e calculamos uma distância, a profundidade e peso de uma cor em relação à outra, é mais um estado de consciência plena que um ato qualquer.
No final, ainda não sou capaz de descrever o que eu fiz. Mas acredito que a distância do ato, aquela relação de desapego será o primeiro ponto para compreender o que realmente aconteceu.
O nome da pintura, Fertilidade, veio da Páscoa. Para ver mais imagens da parede é só visitar o meu Flickr.
Para concluir, sim, mesmo essa pintura, com formas nada realistas, é uma obra erótica, carregada com desejos e impulsos.
Publicado em 25 Março, 2008 de 2:23 pm e arquivado sobre arte, erotismo, pessoais com as tags erotic art, arte, erotica, painting, fertilidade, pintura, entranhas, mark rothko, ad reinhardt, brice marden, parede, wall, acrílico, beatriz milhazes. Você pode acompanhar qualquer resposta por meio do RSS 2.0 feed. Você pode deixar uma resposta, ou trackback do seu próprio site.